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20.05.20   |   Geral

O Brasil refletido no espelho será um mundo pior e com mais medo, diz Jessé Souza

Divulgação

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“Eles vivem em um mundo à parte, comandado pelo anti-intelectualismo militante, o qual não envolve apenas uma percepção distorcida do mundo. O idiota é também levado a agir segundo pulsões e afetos que não respeitam o controle da realidade externa. Um idiota de verdade no comando da nação é um preço muito alto até para uma elite e uma classe média sem compromisso com a população nem com a sociedade como um todo. Esse é o dilema do idiota Jair Bolsonaro no poder.” Assim escreveu recentemente em um artigo intitulado O que significa Bolsonaro no poder, o sociólogo Jessé Souza.

Em entrevista ao Brasil de Fato RS, o sociólogo fala sobre a atuação de Bolsonaro frente ao isolamento social e a guinada que o país deu em direção ao extremismo. Conforme afirma, Bolsonaro nunca guardou segredo de que é um golpista e alguém que despreza a democracia. “Como as suspeitas de falcatruas e assassinatos batem agora à sua porta, fechar o regime é sua única garantia para não ir, junto com seus filhos, para a cadeia”, frisa.

Para ele a saída para o que estamos vivendo passa pelo esclarecimento do povo brasileiro acerca das suas reais condições e acerca de quem o mantém na miséria. Ou, como aponta no final do seu livro A elite do atraso, “a esperança de hoje tem que ser uma adaptação contemporânea do velho chamado aos explorados: os feitos de imbecis de todo o país: uni-vos! Recuperemos nossa inteligência, voltemos a praticar a reflexão autônoma que é a chave de tudo que a raça humana produziu de bonito e de distinto na vida da espécie. Afinal, tudo que foi feito por gente também pode ser refeito por gente”.

Doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha) e professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), Jessé Souza é autor de 27 livros, incluindo A ralé brasileira: quem é e como vive (2009), A tolice da inteligência brasileira (2015), A radiografia do golpe (2016), A classe média no espelho (2019). Presidiu o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) entre 2015 e 2016, onde coordenou pesquisas de amplitude nacional sobre classes e desigualdade social.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato RS - Os discursos do presidente Jair Bolsonaro têm contribuído para o relaxamento do isolamento social, que impactos isso traz, quando se deprecia a ciência e a saúde?

Jessé Souza - O comportamento do presidente é insano e irresponsável para com seu próprio povo. A agenda de Bolsonaro, de resto, não tem nada a ver com um projeto de nação ou desenvolvimento. Ele está aí como representante de um projeto internacional de saque econômico de países neo-colonizados comandado pela extrema direita dos EUA. Este projeto não ataca a esquerda preferencialmente – a não ser no discurso – mas sim o consenso democrático enquanto tal, ou seja, as ideias de direitos individuais e sociais, a defesa do meio ambiente e o debate democrático. Esta é a agenda bolsonarista real. Acrescida, claro, do saque para a elite internacional e nacional do Guedes e da destruição do Estado pela milícia a partir de baixo. Tudo isso garantido pela manipulação do ressentimento dos pobres evangélicos – que não compreendem como são explorados - com o uso de redes sociais também ligadas ao Estado americano.

BdFRS - Pode-se afirmar que esse discurso é todo voltado à questão econômica em detrimento da Saúde? O que está por trás desse modo operante do presidente, na sua visão?

Jessé - Sim, é a verdade. O que está por trás é um discurso fascista de desprezo pela vida que passa a ser subordinada ao saque econômico.

BdFRS - Em que ponto o Brasil deu essa guinada tão acentuada a esse extremismo ideológico?

Jessé - Esta história, como conto no A Elite do Brasil, tem já cem anos entre nós. Sua última aparição se deu com a lava-jato e com Moro. Ou seja, ela tem a ver com a criminalização da política toda vez que ela propõe a dar um pouquinho do orçamento público também para o povo. Toda vez que isso acontece temos um golpe de Estado sob a justificativa fajuta de corrupção e/ou ameaça comunista. Na verdade, a classe média não liga a mínima para a corrupção se ela for da elite como vimos no caso de Aécio e Temer sem nenhuma comoção pública. Como no Brasil, o racismo aberto foi interditado, ele se manifesta mascarando o racismo contra o povo pobre e negro sob a máscara dourada do falso moralismo do combate a corrupção.

Como a lava-jato levou a criminalização não apenas do PT, mas de todo o sistema político, Bolsonaro, com longa ficha corrida de serviços ao crime organizado miliciano, foi construído pela mídia e pela manipulação profissional das novas redes sociais como o salvador da política corrupta. Uma mentira e uma fraude do começo ao fim.

BdFRS - Que significado tem para a democracia as aparições do presidente nos últimos domingos, em especial nesse que passou, incentivando o ataque às instituições e à própria democracia?

Jessé - Bolsonaro nunca guardou segredo de que é um golpista e alguém que despreza a democracia. Como as suspeitas de falcatruas e assassinatos batem agora à sua porta, fechar o regime é sua única garantia para não ir, junto com seus filhos, para a cadeia. Para a democracia e a sociedade brasileira, Bolsonaro representa o pior momento pelo qual jamais vivemos na história. Nada nem ninguém é ou foi mais destrutivo que Bolsonaro.

BdFRS - Tens falado da invisibilidade do saque da elite ao patrimônio público, ao Estado. Que papel pode ter a imprensa e a intelectualidade de esquerda para superar essa invisibilidade?

Jessé - A esquerda historicamente pagou um preço altíssimo por compartilhar as ideias conservadoras da “direita chic” que sempre se passou por esquerda entre nós. O falso moralismo do combate à corrupção, supostamente incrustrada apenas no Estado, é a ideia política dominante nos últimos cem anos entre nós. Nada se compara a ela em influência por um lado, nem em mentira e fraude por outro lado. É claro que se rouba “também” no Estado, mas sempre os mandantes do roubo são os proprietários da elite.

Criou-se o “bode expiatório” da corrupção política como causa dos problemas nacionais para esconder e tornar invisível o saque legalizado e ilegal da elite. Ciro Gomes foi o primeiro a problematizar o óbvio, hoje em dia admitido até pelo próprio Paulo Guedes: o Brasil é um país de 200 milhões de trouxas explorados por seis bancos. Por trás dos escorchantes ganhos bancários está a elite inteira. Como a grande imprensa pertence, direta ou indiretamente aos mesmos bancos, o trabalho dela é tornar este saque irreconhecível. Criar um “bode expiatório” eterno é a melhor saída.

Até bem pouco tempo a esquerda caia nesta mesma esparrela o tempo todo. Mesmo quem criticava o saque rentista, como Ciro fez, não vinculava isso ao engodo do falso moralismo. A explicação tem que ser totalizadora para convencer as pessoas. Todo o castelo de cartas tem que cair. Espero que a esquerda aprenda isso algum dia.

BdFRS - A invisibilidade da corrupção no Estado esteve sempre presente de forma muito profunda. Prisioneiros do jogo político para governar, os governos de Lula e Dilma não incidiram sobre essa questão como deveriam. Como quebrar essa invisibilidade? O Brasil tem maturidade política para transformar essa cultura para uma gestão republicana?

Jessé - Pois é, eu discordo de você. A corrupção invisível é a do mercado e de seus donos. O problema do PT foi tentar se arranjar com a elite dominante e não ter se importado com o esclarecimento do próprio povo. Confiou no marketing de ocasião. Um projeto míope e pouco inteligente para dizer o mínimo.

BdFRS - Vários pedidos de impeachment para Bolsonaro já foram protocolados, mesmo assim, sem vislumbre de que algo ocorra, por quê?

Jessé - Porque quem tem o Congresso no bolso é a elite que estamos falando aqui. E ela está gostando muito de Bolsonaro e de Guedes. O saque da população é feito à luz do dia.

BdFRS - Como o Brasil, vemos vários países à beira do fascismo. O que poderemos imaginar para um mundo pós-pandemia? Que Brasil e que mundo teremos refletido no espelho pós-pandemia?

Jessé - Não sei, mas acho que será um mundo pior e com mais medo.

BdFRS - Pode-se dizer que Bolsonaro prestou um serviço ao autoconhecimento da nação ao espelhar uma imagem diferente do brasileiro - mesquinho, egoísta, violento, estúpido, racista, misógino, homofóbico - que até então era pouco crível para muita gente?

Jessé - Não creio. O público de Bolsonaro é de dois tipos: o segmento evangélico do pobre remediado que foi oprimido pelas classes do privilégio cultural toda a vida e por isso apoia a cruzada obscurantista contra o conhecimento, a arte e a ciência, como todo ressentido faria; e o segmento mais canalha e odioso de todas as classes sociais. Se estudarmos as classes sociais para além do dado econômico conhecemos muita coisa sobre o comportamento de 80% das pessoas. Mas toda sociedade tem 20% de pessoas excepcionais para o bem, mas também 20% de perversos, covardes, invejosos, ressentidos e cruéis por motivos familiares em todas as classes. Este esgoto social brasileiro está todo com Bolsonaro como nunca esteve com ninguém. A identificação é, portanto, total.

BdFRS - Qual seu sentimento ao ver as imagens das chamadas carreatas da morte?

Jessé - Raiva e impotência.

BdFRS - Há saída para o país? Qual seria?

Jessé - O esclarecimento do povo brasileiro acerca das suas reais condições e acerca de quem o mantém na miséria.

Fonte: Brasil de Fato do RS

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