Redução da jornada: por que o Brasil precisa trabalhar menos para viver

Reprodução/CUT-RS
Redução da jornada: por que o Brasil precisa trabalhar menos para viver

Por que a redução da jornada de trabalho voltou ao centro do debate público? Quais são os interesses em disputa? E o que está por trás dos argumentos contrários? Para responder a essas questões, conversamos com João Marcelo Pereira dos Santos, assessor da CUT/RS sobre esse tema de grande importância para classe trabalhadora.


A redução da jornada de trabalho voltou ao centro do debate no Brasil. O que explica esse movimento?

Nos últimos anos, especialmente após as eleições de 2022, esse tema ganhou força na sociedade. A campanha em torno da ideia de “vida além do trabalho” e o questionamento da escala 6x1 trouxeram para o debate público algo que sempre foi central para a classe trabalhadora. Hoje, não se trata mais de uma pauta restrita ao movimento sindical — é uma demanda social ampla, com forte apoio popular e presença no Congresso Nacional.


Existe apoio da população para essa proposta?

Sim, e isso é um dado muito importante. Pesquisas recentes mostram que a maioria dos brasileiros apoia tanto a redução da jornada quanto o fim da escala 6x1. Entre jovens e mulheres, esse apoio é ainda maior. Ou seja, há um desejo social claro de trabalhar menos e viver mais.


Os críticos dizem que o brasileiro já trabalha pouco. Isso é verdade?

Não. Os dados mostram exatamente o contrário. Milhões de trabalhadores no Brasil cumprem jornadas superiores ao limite legal de 44 horas semanais, e a maioria trabalha mais de 40 horas. Essa narrativa de que o brasileiro trabalha pouco não se sustenta na realidade.


Um dos principais argumentos contrários é que a redução da jornada aumentaria os custos das empresas. Como você responde a isso?

Esse argumento ignora vários fatores. Primeiro, experiências internacionais mostram que a redução da jornada não necessariamente reduz a produtividade, em muitos casos, ela melhora. Isso acontece porque as empresas reorganizam seus processos, eliminam desperdícios e tornam o trabalho mais eficiente. Além disso, o excesso de trabalho também gera custos: adoecimento, afastamentos, rotatividade e queda de desempenho. Reduzir a jornada é também uma forma de investir em saúde e produtividade no médio e longo prazo.


E em relação à produtividade? Trabalhar menos não significa produzir menos?

Não existe uma relação direta entre horas trabalhadas e produtividade. A produtividade depende de tecnologia, organização do trabalho, qualificação profissional e gestão. Trabalhadores exaustos tendem a errar mais, adoecer e produzir menos. Já trabalhadores com mais tempo de descanso e qualidade de vida tendem a ser mais eficientes.


Outro argumento recorrente é que a redução da jornada pode gerar desemprego ou aumentar a informalidade. Isso procede?

Não necessariamente. A informalidade no Brasil é um problema estrutural, que não depende da duração da jornada. Pelo contrário, a redução da jornada pode estimular a criação de empregos, já que as empresas podem precisar contratar mais trabalhadores para manter o nível de produção. Claro que isso depende de políticas públicas e de fiscalização, mas a ideia de que reduzir jornada automaticamente gera desemprego não se sustenta.


E quanto à competitividade internacional do Brasil? Existe risco de perda de espaço?

A competitividade de um país não depende apenas da jornada de trabalho. Infraestrutura, tecnologia, inovação e qualificação da força de trabalho são fatores muito mais determinantes. Apostar em jornadas longas e salários baixos não é estratégia de desenvolvimento — é sinal de atraso.


Alguns dizem que “não é o momento” para esse tipo de mudança. Como você avalia essa posição?

Esse argumento sempre aparece quando se trata de ampliar direitos. Historicamente, nunca foi “o momento” para o empresariado. Mas se olharmos o contexto atual, temos exatamente o contrário: avanços tecnológicos, mudanças no mundo do trabalho e um desejo social claro por mais qualidade de vida. Se não for agora, quando será?


A redução da jornada funcionaria em todos os setores?

Há setores que exigem funcionamento contínuo, como saúde e segurança, mas isso não impede a redução da jornada. O que muda é a organização do trabalho: escalas, contratações e gestão. Inclusive, nesses setores, reduzir a jornada pode melhorar a qualidade do serviço e reduzir o adoecimento dos trabalhadores.


Essa pauta é apenas uma bandeira ideológica?

De forma alguma. A redução da jornada é uma pauta civilizatória. Trata-se de garantir condições dignas de vida em um contexto de profundas transformações tecnológicas e sociais. Não faz sentido manter jornadas pensadas para outra época, quando a produtividade era muito menor.


Qual é, então, o principal significado dessa luta hoje?

A luta pela redução da jornada é, no fundo, uma disputa sobre o sentido do trabalho na sociedade. É uma luta por mais empregos, mais saúde, mais tempo livre e mais qualidade de vida.

Não se trata de trabalhar menos por trabalhar menos, mas de trabalhar melhor e viver melhor.


Para finalizar: o Brasil está pronto para reduzir a jornada de trabalho?

Sim. A sociedade já demonstrou que está pronta. O que está em disputa agora são os interesses econômicos e políticos que resistem a essa mudança. Como sempre na história, nenhum avanço virá sem mobilização.

Reduzir a jornada é possível, necessário e urgente. Está na hora de colocar a vida acima do lucro


Fonte: CUT-RS

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